Serra Pelada recompensou Curió

Finda a guerrilha, entre os anos de 1974 e 1975, com um saldo desabonador para os militares, já que houve execuções sem julgamento e desaparecimento de corpos até hoje não encontrados, ainda havia uma missão considerada crucial pelo governo brasileiro. Manter a região sob rédeas curtas. É aí que o papel do ‘major Curió’ ganha amplitude. “Havia uma guerra maior do que a que terminava, era a luta pela terra. Essa é uma das chaves para a compreensão do fenômeno Curió”, diz padre Ricardo Rezende, que morou em Conceição do Araguaia a partir de 1977. Atualmente vive no Rio de Janeiro. “Via-se no Curió, o ‘doutor da mata’, aquele que restou após a Guerrilha para concretizar a promessa de paz e vigiar a região. Ele era ‘o justiceiro oficial”, diz Rezende. A época era a de expansão do capitalismo na região Amazônica, construção da Transamazônica, Rodovia Belém/ Brasília, implantação de grandes projetos que ajudavam a povoar a Amazônia. A doutrina de segurança nacional endossava qualquer excesso dos militares.


Configurava-se assim a concentração fundiária na região, construía-se o cenário perfeito para a região de maior conflito de luta pela posse de terra no país.



Quem conheceu de perto a maneira ‘justiceira’ de agir de Curió foi o missionário italiano Nicola Arpone, sequestrado em julho de 1979 em Vanderlândia, Tocantins. O missionário teve olhos vendados antes da sessão de torturas. Nicola foi ameaçado de ser jogado do alto de um helicóptero e fuzilado na mata. Segundo ele, nove homens sob o comando de Curió executaram a missão. A meta principal era livrar os colonos da “ameaça” comunista. Curió explicava sua atuação alegando ser “um homem do sistema”.



A mão pesada de Curió se voltava até contra os que eram do mesmo lado. É o caso do sargento João da Santa Cruz Sarmento, que participou das primeiras ações contra a guerrilha em Marabá e foi um dos últimos a sair da região no fim dos conflitos, mas que ao final foi perseguido e preso por Sebastião Curió, sob a acusação, nunca provada, de que estaria vendendo terras a colonos. Por conta disso, deu baixa no Exército sem ter obtido as promoções a que teria direito se permanecesse normalmente nas Forças Armadas. Santa Cruz mora atualmente em um pequeno sítio no município de Santo Antônio do Tauá,



Nordeste do Pará.



No outro extremo do país, a atuação de Curió também se fez notar. Os colonos do Paraná e Rio Grande do Sul conheceram bem as táticas do, já então conhecido como ‘coronel Curió’. No dia 23 de julho de 1981, Curió aportou no acampamento ‘Encruzilhada Natalino’, no município de Ronda Alta, Rio Grande do Sul, o embrião do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Uma semana depois monta barraco



no acampamento, estrutura sistema de alto-falantes e começa a intervir no acampamento. Curió tem a companhia de vários policiais à paisana. Fala em nome da Presidência da República, e com autoridade para resolver o problema do acampamento.



O aparato era garantido. Além de policiais, dinheiro e aviões do tipo búfalo ficavam à disposição de Curió. Eram utilizados para transportar os colonos que desejassem visitar projetos de colonização em outras partes do Brasil. A ideia sempre era a de desarticular o acampamento.



Sempre eloquente, Curió foi acusado de as lideranças e cooptar colonos com promessas de coordenação em assentamentos em outros Estados. “Falava-se dele na região do Araguaia como alguém perigoso, que faria parte do grupo que participava das torturas no decorrer do combate aos guerrilheiros; que não se deixava fotografar e era onipresente após a guerrilha. Seria um homem de confiança do governo militar. Atento ao perigo de uma presença de ‘comunistas’ na região ou de um ressurgimento da guerrilha”, lembra padre Ricardo.



Rezende lembra bem o primeiro contato. “Um novo bispo tomou posse na Diocese, dom José Hanrahan, irlandês e redentorista. Substituía ao dominicano dom Estevão. E um dia dom José me ligou e disse que iria receber o famoso Curió e queria que eu estivesse com ele, como testemunha da conversa. Dom José era muito prudente. Evitava encontros desta natureza, sem a presença de testemunhas. Fui para a casa do bispo. Pouco depois, conheci o famoso Curió”.



A impressão era a mesma que todos tinham num momento inicial. “De fato ele era um homem gentil, simpático. Cabelos e bigode brancos. Olhos claros. Disse que vinha em nome do novo presidente, João Batista Figueiredo. O presidente queria manter uma boa relação com a igreja local. E Curió explicou: sabia que a igreja tinha razões para desconfiar, mas o governo dava todo o crédito à igreja”. Segundo o padre Ricardo Rezende, Curió em geral era competente. Manipulava as relações, exercia a função paternalista. “Era um ‘pai’ que premiava os obedientes e sabia ser severo com os demais. Exercia a ‘dominação’ com sucesso, por isso suas boas relações com as autoridades de Brasília”.



As ‘boas relações’ levaram Curió a ser praticamente o ‘dono’ de Serra Pelada e a sair das sombras, iniciando uma controvertida carreira política. É o que se lerá na edição de amanhã do Diário. (Diário do Pará)

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