O outrora “implacável” senador Demóstenes


No papel de “pedra”, o senador goiano não dava trégua aos colegas que praticavam deslizes éticos. Agora, como “vidraça”, ele pede compreensão e ajuda dos demais parlamentares. O Congresso em Foco faz uma lista das suas bravatas éticas
As revelações sobre a relação do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, chefe de quadrilha do jogo ilegal preso desde fevereiro pela Polícia Federal, pegaram muita gente de surpresa. Até surgirem gravações e outras evidências de que Demóstenes, como senador, era uma espécie de lobista dos interesses de Cachoeira no Congresso, ele era um dos nomes mais respeitados do Senado brasileiro. Um empedernido defensor da ética na política e duro combatente da corrupção. Destacava-se no bloco dos senadores considerados éticos, como Pedro Simon (PMDB-RS) e Pedro Taques (PDT-MT), ambos hoje dizendo-se perplexos com a revelação do real perfil de Demóstenes.Uma perplexidade que atingiu mesmo antigos colegas de partido do senador, como o líder do DEM na Câmara, ACM Neto (BA), que recorreu ao termo para descrever seu estado de espírito, logo após decisão da cúpula demista de expulsar Demóstenes de seus quadros.
Devidamente enquadrado pelo partido – que se vê cada vez mais combalido depois da prisão e queda do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, em 2010, no episódio do mensalão de Brasília e do êxodo de integrantes para o PSD –, Demóstenes sabe que não pode mais posar de símbolo da ética. Nessa tarefa, antes de ser conhecida a extensão da sua amizade com um criminoso agora preso na penitenciária de Mossoró (RN), Demóstenes era implacável. Como mostram os episódios abaixo, reunidos pelo Congresso em Foco.
Delegacia de polícia
Em 2007, o então presidente do Senado e atual líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), viveu uma verdadeira via crucis que, decorrência de uma série de denúncias, levou-o à renúncia do posto máximo da Casa, em dezembro – o mandato-tampão foi exercido pelo atual ministro da Previdência Social, Garibaldi Alves. Em 12 de setembro daquele ano, Renan, acusado de ter despesas pessoais pagas por um lobista, foi julgado por quebra de decoro parlamentar no Plenário do Senado, que ignorou a opinião pública e o manteve no exercício do mandato por uma diferença de cinco votos (relembre).
Dias antes do julgamento, lá estava Demóstenes a posar de defensor da boa política na tribuna do plenário. Diante de Renan, que (ainda) ocupava a presidência do Senado, Demóstenes não perdeu a oportunidade de posicionar sua outra persona diante das câmeras da TV Senado. “Senhor presidente Renan Calheiros, sei perfeitamente que o momento que Vossa Excelência vive não é fácil. [...] Sinceramente, não tenho nenhum prazer em estar nesta situação”, discursou, mencionando publicações em órgãos de imprensa que davam conta de uma “arapongagem” que, segundo as notícias, foram ordenadas por Renan em Goiânia, reduto eleitoral de Demóstenes. Nesse instante da fala, a TV Senado focaliza Renan, que faz sinal de negativo com a cabeça.
“O que dizem estas reportagens? [...] Francisco Escórcio [atualmente deputado federal pelo PMDB do Maranhão, ligado a José Sarney], que todos nós nesta Casa conhecemos, esteve em Goiânia no escritório de dois advogados, mandou chamar um ex-deputado federal que é empresário, e propôs a ele que fizesse uma arapongagem em relação a mim e ao senador Marconi Perillo [PSDB, hoje governador de Goiás]”, reclamou Demóstenes, sob o olhar contrariado de Renan. “Francisco Escórcio não é procurador-geral da República, não é ministro do Supremo Tribunal Federal! Ele não pode mandar investigar um senador!”, bradou Demóstenes, apontando o dedo para Renan, que tenta replicar fora do microfone.
Mais adiante, o deputado Valter Pereira (PMDB-MS), contrariado com o tom usado por Demóstenes, pergunta: “Onde nós estamos? No Senado Federal ou em uma delegacia de polícia?”. E Demóstenes rebate “Vossa excelência pode responder, não sei qual é a intenção da pergunta. O Conselho de Ética existe justamente para apurar quebra de decoro… é isso o que vossa excelência quis dizer? Ou quis fazer uma defesa [de Renan]?”, rebate Demóstenes.
Veja video com o episódio:


“Figuras menores”
Em 6 de agosto de 2009, quando o Senado vivia a crise dos atos secretos, Demóstenes aproveitou um bate-boca entre Renan Calheiros (PMDB-AL) e o ex-senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), para manifestar sua conduta “ilibada” – o então líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), discursava na tribuna e se defendia da acusação de ter usado dinheiro público para fins pessoais, o que resultou em abertura de processo no Conselho de Ética. Na galeria do plenário, um homem retrucava a cada declaração de Virgílio, o que irritou Tasso a ponto de ele pedir a expulsão do visitante – que foi defendido por Renan, no que foi o início da troca de palavrões e insultos.
Relembre:
Demóstenes lembrou que, quando resolveu disputar cargo eletivo, escolheu o Senado por se tratar de “local dos grandes homens”. Na declaração, o senador faz questão de deixar claro seu desalento após testemunhar a discussão de dois colegas em plenário. “Hoje experimentamos, ao menos eu experimentei de corpo presente, talvez a sessão mais degradante na minha vida aqui dentro do Senado. Nós chegamos a um ponto extraordinariamente baixo, e temos que dar um basta a isso”, bradou Demóstenes, questionando a razão da existência da instituição.
“Somos um bando de figuras menores? Figuras que vêm aqui com o único objetivo do enriquecimento pessoal, e não para defender os interesses da sociedade? Figuras que trabalham nos bastidores, que querem, sim, a desmoralização da Casa? (…) Qual é a imagem que temos? É isso que é a Casa em que desejei entrar em minha primeira candidatura? Só me servia o Senado. Por quê? Porque aqui é o local dos grandes homens, dos mais experientes”, acrescentou, lembrando nomes históricos da Casa, como Getúlio Vargas, Tancredo Neves e Affonso Arinos.
Crítica a Palocci por situação parecida com a sua
Outra bravata ética de Demóstenes foi veiculada pelo canal do líder do DEM no Senado, José Agripino (RN), no Youtube. O curioso é que, na ocasião, Demóstenes criticava o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, por ter arquivado denúncia contra o ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci por tráfico de influência. Agora, Gurgel agiu de forma também muito criticada com relação ao próprio Demóstenes: o procurador conhecia o conteúdo das investigações contra o senador goiano desde 2009, e só agora tomou providências.
“A saída do ministro Palocci era algo esperado não só pelo Parlamento, mas pelo Brasil. Afinal de contas, ele não deu qualquer explicação, deu sim desculpas. A blindagem feita pelo procurador geral da República [Roberto Gurgel] acabou repercutindo muito mal para ele próprio”, fustigou Demóstenes, referindo-se à decisão de Gurgel de arquivar, em 6 de junho, pedido de abertura de inquérito contra Palocci à época, alegando não haver elementos nos autos que justificassem a medida.
“Agora, vamos prosseguir com a tentativa de instalar a CPI, porque afinal de contas Palocci tem que ser investigado e, se deve, tem que ser punido. A nossa luta não cessa. Esse é apenas um primeiro momento em que a queda revela o anseio da sociedade e abre o caminho para o restabelecimento do diálogo com a classe política”, emendou o senador goiano.
Assista ao vídeo:




“Torpe”
Recentemente, a audácia crítica de Demóstenes provocou uma cena jamais vista no Plenário do Senado, com o cúmulo de o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), deixar sua cadeira central na Mesa Diretora e, dedo em riste, cobrar explicações de Demóstenes aos gritos, trêmulo, quase partindo para a agressão, mesmo aos 81 anos – o pior só não aconteceu devido à intervenção de Fernando Collor (PTB-AL), que se interpôs entre os desafetos.
O entrevero foi decorrência da manobra de plenário que, ensaiada com os líderes da base, serviu para inverter a pauta de votações e colocar a prorrogação da Desvinculação das Receitas da União na frente da regulamentação da Emenda 29, contrariando acordo feito naquela semana com a oposição. A “pressa” de Sarney se justificava aos olhos da base: a matéria precisava cumprir o prazo de cinco sessões de discussão, e ser antecipada às demais proposições pautadas. Demóstenes não gostou nada do procedimento. Deu-se, então, a troca de “gentilezas”
Leia e assista ao vídeo sobre a confusão:
“Vossa excelência está rasgando o regimento [interno], rasgando a sua palavra. (…) Não use da minha concordância para determinado procedimento, para vossa excelência e o governo, de maneira torpe, burlar o [acordo] que nós fizemos. Torpe! Não queira me utilizar nesse tipo de… não fiz esse acordo”, vociferou Demóstenes, empunhando um exemplar da Constituição que, nos momentos de discussão acalorada, ele utilizava como símbolo de sua “austeridade moral”. “Vossa excelência iniciou a votação e disse que hoje [terça, 6], era o primeiro item da pauta. Honre então que o senhor descumpriu o acordo!”
Sarney ainda tentou ponderar, ordenou a retirada da palavra “torpe” das notas taquigráficas, e passou a fitar com semblante contrariado as movimentações de plenário. Depois, o parlamentar octogenário desceu da espécie de altar que acomoda a Mesa e, consternado, foi até Demóstenes, que ficou impassível diante da aproximação. “Você me deve desculpas! Você me respeite!”, protestou Sarney, já fora do enquadramento da TV Senado, bloqueado por Collor. “Eu ia falar o quê para um homem de 80 anos?”, declarou o senador do DEM, depois de pedir as desculpas exigidas pelo peemedebista como condição para que uma medida drástica, como representação ao Conselho de Ética, não fosse formalizada.
“Alvos” de Demóstenes, Sarney e Renan, comenta-se nos bastidores, estão prontos para dar o troco. Embora não dêem declarações publicamente sobre o assunto, os peemedebistas devem mobilizar seus correligionários para que um eventual pedido de cassação de Demóstenes seja aprovado em plenário, após a tramitação no Conselho de Ética. Depois de dizer que o “calvário” de Renan havia se transferido a todo o Senado, o ex-líder do DEM agora é quem o enfrenta .

1 comentários:

  1. Eu cotinuo achando que não temos gente honesta, mas, no máximo, a oferta foi pouca. Fora os otários, bovinamente.

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